Tuesday, October 04, 2005

jabor



já disse aqui antes que não morro de amores pelo jabor, mas o texto dele sempre causa reflexão, nem que essa reflexão venha da raiva, como quando ele entra numas de falar que a era fhc foi o único momento de lucidez pós-ditadura. nessas horas dá vontade de mandá-lo se roçar nas ostras e não lê-lo nunca mais. mas então ele escreve uma crônica como a de hoje, "seremos mais felizes como coisas". nela, ele se debruça sobre o já velho de guerra conceito de reificação tão querido à escola de frankfurt e adjacências. ele inclusive fala sobre baudrillard no começo, já avisando que não vai falar nada de novo, quiçá parodiar pensamentos do próprio filósofo.

é aí que temos parágrafos como:

"um mundo opaco gerará uma fome pavorosa de transcendência. haverá um ressurgimento das religiões e da fé, provocando grandes woodstocks de absoluto, já visíveis hoje nos showmícios evangélicos e nos rituais fundamentalistas. o iluminismo será definitivamente enterrado. deus, que tinha morrido, já está renascendo, como um produto útil para o conforto e o bem-estar. as igrejas serão como supermercados de esperança."

os que conversam comigo sabem o quanto me incomoda essa coisa da religião como fuga, ópio. não se busca a espiritualidade para um maior entendimento do mundo e de si mesmo, mas para fugir da angústia de se saber mortal e efêmero ou das tristezas de uma vida vazia, inócua. deus vira uma droga poderosíssima que corrobora passividade, conformismo e gera alienação. sinceramente, ir num dos showmícios citados pelo jabor e ficar em transe enquanto um sujeito vestido de padre, pastor, o que seja, fala platitudes e não questionar nada nunca não me parece muito diferente de tomar um pico de heroína e adentrar os paraísos artificiais. os "supermercados de esperança" garantem a sua paz de espírito como um prozac santo que elimina seus temores e lhe conforta como uma grande e compreensiva mãe, mas também elimina sua indignação e livre-arbítrio, te dando verdades prontas que você jamais precisará ter o trabalho de questionar.

"a arte acabará, destruída pelos efeitos especiais. dela só ficarão as emoções, reproduzidas em computação: o belo, o sublime, o épico, o lírico, o trágico - bastará a programação de algum êxtase estético, até de um estilo literário, mas sem obra por trás. as massas só terão circo; pão, talvez."

não gosto deste fatalismo jaboriano, deste quase tesão em proclamar a derrota e o fim. a arte não acabará enquanto houver humanidade, não importando o quão vasto seja o processo de idiotização mundial e os avanços do pensamento único. proclamar o fim definitivo de algo é quase sempre uma furada, vide fukuyama, que fez a alegria de alguns idiotas ao proclamar o fim da história. queria ver o que ele tem a dizer do mundo pós 11 de setembro. é só dar uma olhada ao seu redor, em meio à mediocridade e ao deserto ainda é possível divisar oásis.

"haverá o fim da piedade, o fim da compaixão. as populações miseráveis ou desnecessárias ao mercado serão exterminadas, sob os protestos ridículos e inaudíveis de meia dúzia de humanistas fora de moda."

chegamos a um ponto importantíssimo: o genocídio dos pobres. sim, genocídio é a palavra. fernando solanas, em seu fabuloso documentário "memória do saqueio", devassa os três governos traidores argentinos pós ditadura militar: alfonsín, menem e de la rua. nos três o compromisso era o mesmo: adoração ao capital especulativo e às multinacionais, transformação da dívida externa privada em pública, privatização inconseqüente. os resultados: a maior onda de desemprego já vista na américa latina, aumento da desnutrição infantil de 18% para 80%, vilipendiação irrestrita do estado em nome do interesse de uma elite de menos de 5% de felizardos. para se manter no poder, enriquecer e engordar como porcos, essa elite condena à morte milhares de pobres que vivem em lixões e em áreas que já foram parques industriais e se tornaram favelas sem esgoto, escolas e hospitais. esta elite odeia os pobres e quer vê-los mortos. fausto wolff reproduziu hoje no jornal do brasil a frase do republicano william bennett, a propóstito da criminalidade nos eua: ''se abortássemos todos os bebês negros antes do nascimento diminuiria muito o índice de criminalidade.'' isso logo após uma tragédia que matou, em sua grande maioria, negros e pobres de nova orleans. newton carlos escreveu na década de 70, no pasquim original, que os eua possuem tecnologia para desviar furacões e teriam, supostamente, já se utilizado deste know-how para jogar catástrofes sobre, por exemplo, cuba. não tenho o artigo em mãos, mas me lembro que newton carlos cita documentos do Centro Nacional de Furacões (NHC) que comprovam a existência de tal tecnologia. estranhamente, o furacão rita não causou estrago quase nenhum em houston, meca do petróleo nos eua. preciso dizer mais ou vocês já imaginaram onde eu quero chegar? extermínio pode ser a palavra de ordem.

enfim, como disse no início, pode-se detestar o jabor à vontade, eu o destesto por vezes, mas não se pode dizer que seus textos não façam nossos neurônios se exercitarem.

6 Comments:

Blogger Máximo Heleno Lustosa da Costa said...

Vamos nós: bem, como vc sabe, minha mais nova obsessão é ler todas as crônicas e guardá-las. Isso já tá dando no saco, mas, ainda está suportável. Acho o Jabor um dos nossos melhores crônistas (muito bem pago pra isso. Reclamações para o Fabiano).

Estou de acordo contigo em quase tudo. A única coisa que me escapa (por falta de pensar sobre e me parecer que há algo dialético não levado em conta) é a questão da morte das idéias, no caso, a arte. Bem, é possível que sendo uma divindade, a Arte também possa renascer. O que não conseguimos de forma alguma hoje é distinguir o que é arte e o que é produto. Mais: a arte também é um produto, entretanto, com características específicas que a alienariam, ou que manteriam, apesar de Duchamps, apesar dos pesares, com algo de imaculada, mesmo quando os seus pés estão sujos de barro. Claro, isso é uma viagem minha. Mas, está difícil buscar novas expressões que não tenham o aplauso do CCBB, da Casa França-Brasil e seus pares, que funcionam como uma etiquetadora de supermercado dizendo o que é arte e não é. Por aí, não seria difícil pensar que a arte morreu - pensando sempre em ressureição como está na moda, claro.

Mas, não pensemos no fim do fim: sabemos que pelos cantos de Niterói (e talvez do mundo) grupos se reúnem para tramar (maquiavelicamente) mudanças... rs.

Homens, às armas.

Abraços.
Máximo

5:11 AM  
Blogger Fabiano Morais said...

max, o que acho furada são esses fins declarados, quando, por exemplo, críticos de literatura proclamam o "fim do romance", como se ainda não se escrevessem bons e, às vezes, excelentes romances hoje em dia (sob pena de parecer repetitivo, por exemplo, o "à mão esquerda", ou mesmo os romances do meu estimado philip roth). acho que sempre existe renovação... ...o "conversando literaturas" está aí pra provar isso... ...rs. o próprio roth deu uma entrevista rabugenta e desnecessária no globo dizendo que a literatura vai acabar não por falta de escritores, mas por falta de leitores. balela, derrotismo babaca.

e essa história de arte como produto... ...nunca foi diferente. a arte sempre foi financiada ("os lusíadas" foi encomendado pela coroa) e vendida e não se torna menor por isso. sei que falo sobre algo um pouco diferente do que você disse sobre o assunto, mas só quis dar um exemplo.

concordo que a argumentação sobre isso ficou corrida no meu post, a questão é mais complexa e, quiçá inesgotável e "irrespondível", mas o fato é que o que quis ressaltar mais foi a questão do genocídio dos pobres, e estava louco para chegar logo nessa parte do texto... rs...

forte abraço.

6:22 AM  
Blogger Máximo Heleno Lustosa da Costa said...

E o texto do Jabor estava excelente, também - rs.

Quanto ao genocídio, vale ressaçtar que o raciocínio do Jabor e do Fausto (tá na hora do Fausto pagar um chope pra gente) caminha por uma linha inteiramente de produção, da desnecessidade do ser humano, ou seja, é a lei da busca e demanda, tem ser humano demais no mundo, (preto e pobre, então!),logo, o preço cai e já (ops) se torna até descartável. Enfim, tudo normal.

Quanto aos mecenas de sempre (e nós que buscamos os nossos), gosto de imaginar que eu posso determinar o que é arte e o que não é, independente do CCBB, da Maison du France e da Coroa... pura vaidade, mas, o que não é vaidade? rs, compliquei...

Novos abraços.

6:56 AM  
Blogger Marlon Magno said...

Eu entrei aqui pra comentar sei lá o quê, mas vendo as figurinhas trocadas descobri que as minhas são repetidas. Até breve, jovens.

9:14 PM  
Blogger Otavio Meloni said...

é pra gente comentar ou pra vc ficar conversando com o maximo??????hahahaha
maneiro o texto, principalmente a parte das ostras...

11:27 AM  
Anonymous Morgana said...

Nunca pare de escrever!

10:43 PM  

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